
Cirurgia para artrose: quem realmente precisa operar?
Se você tem artrose no joelho e está em dúvida se a cirurgia é realmente necessária, saiba que essa é uma das decisões mais importantes no tratamento da doença. Afinal, há pessoas que passam por uma cirurgia de prótese de joelho sem real indicação. Enquanto outras vivem com dor e limitação, sem saber que poderiam ter uma solução para recuperar a qualidade de vida.
Com mais de dez anos de experiência como ortopedista e cirurgião de joelho, o Dr. Oliver reuniu neste conteúdo tudo o que um paciente precisa saber antes de tomar essa decisão. Aqui, você vai entender quem realmente precisa operar, quem pode evitar a cirurgia, quais são os riscos e benefícios do procedimento. Além de quando vale a pena esperar e quais alternativas o médico pode tentar antes da prótese.

O que é a cirurgia de prótese de joelho (artroplastia)
A cirurgia de prótese de joelho, também conhecida como artroplastia, é um procedimento indicado para substituir as partes danificadas da articulação por componentes artificiais, normalmente feitos de metal e plástico especial. O objetivo é restaurar o movimento, reduzir a dor e, assim, permitir que o paciente volte a realizar suas atividades com mais conforto.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não se “tira o joelho inteiro” durante a cirurgia. O ortopedista remove apenas uma fina camada de osso, junto com a cartilagem desgastada, e encaixa a prótese sobre a superfície preparada. Assim, boa parte da estrutura natural do joelho é preservada, incluindo tendões e alguns ligamentos, que continuam desempenhando suas funções normalmente.
Objetivos e benefícios da cirurgia
A cirurgia de prótese de joelho tem como principal objetivo eliminar a dor causada pelo atrito entre os ossos. Ao substituir essas áreas danificadas por uma prótese, o procedimento restaura o movimento. Assim, permitindo que o paciente volte a andar, se movimentar e realizar tarefas do dia a dia com muito mais conforto.
Além disso, em muitos casos, a cirurgia também corrige o desalinhamento do joelho, comum em pessoas cuja articulação está “torta”, seja voltada para dentro (joelho em valgo) ou para fora (joelho em varo). Essa correção não apenas melhora a estética da perna, mas também restabelece o equilíbrio do corpo. Com isso, reduzindo o risco de sobrecarga em outras articulações, como quadris e coluna.
Quando a cirurgia de prótese de joelho não é necessária
Nem todo paciente com artrose no joelho precisa passar por uma cirurgia de prótese apenas porque os exames mostram desgaste. O critério mais importante não é a aparência do joelho na radiografia ou na ressonância, mas a presença de dor e a limitação nas atividades do dia a dia. Se a pessoa sente pouco ou nenhum incômodo e consegue se movimentar normalmente, não há razão para operar nesse momento.
Existem casos clássicos de pacientes cujo joelho parece “todo estragado” na ressonância ou na radiografia. Mesmo assim, esses pacientes vivem bem, fazem caminhadas e até praticam esportes de impacto.
Por exemplo, no ano passado, atendemos aqui na clínica um maratonista com menos de 50 anos. Também atendemos um jogador de futebol, ambos com artrose significativa, mas que continuavam ativos. O maratonista, inclusive, conseguiu correr 42 quilômetros apenas com uma aplicação de ácido hialurônico antes da prova.
Um outro exemplo vem da minha própria família, minha avó, de 95 anos. Ela mantém boa mobilidade e qualidade de vida até hoje com uso de ácido hialurônico e outras medidas conservadoras, sem ter precisado de cirurgia.
É importante reforçar que esses tratamentos conservadores não funcionam da mesma forma para todos. Algumas pessoas não encontram alívio suficiente e acabam precisando da prótese mais cedo. No entanto, para muitas, é possível adiar a cirurgia e manter uma vida ativa e relativamente livre de dor por anos.
Situações em que a cirurgia é contraindicada
Existem situações em que o médico não indica a cirurgia de prótese de joelho, mesmo quando o paciente apresenta artrose avançada. Um grupo importante são aqueles com infecção ativa na articulação ou que tiveram infecção recente no joelho nos últimos cinco anos, pois operar nessas condições aumenta o risco de complicações graves.
Também não é recomendada a cirurgia para pacientes com risco cirúrgico muito alto, ou seja, pessoas que podem não suportar o procedimento ou a anestesia.
Por isso, a equipe médica e o paciente devem decidir juntos se realizam ou não a cirurgia, sempre considerando cuidadosamente os riscos e os benefícios.
Prótese de joelho em pessoas jovens: riscos e precauções
Quando se trata de pacientes jovens, geralmente com menos de 55 ou 60 anos, a decisão de colocar uma prótese de joelho exige ainda mais cuidado. Embora as próteses modernas tenham durabilidade impressionante, elas não duram para sempre.
Estudos mostram que mais de 90% das próteses conseguem funcionar bem por 20 anos ou mais, mas pacientes jovens e ativos têm maior probabilidade de precisar de uma cirurgia de revisão no futuro. E esse tipo de procedimento é muito mais complexo, apresenta maior risco de complicações e, na maioria dos casos, o resultado funcional final é inferior à cirurgia inicial.
Por isso, em pessoas mais jovens, o médico costuma avaliar alternativas conservadoras, adiar a cirurgia sempre que possível e discutir os riscos e benefícios antes de indicar a prótese.
Indicação da cirurgia de de prótese de joelho
A cirurgia de prótese de joelho está bem indicada quando o paciente apresenta dor persistente e incapacitante, que interfere no sono, na mobilidade e na qualidade de vida, mesmo após a tentativa de todos os tratamentos conservadores disponíveis.
Essas abordagens incluem fisioterapia de qualidade, medicações, infiltrações, mudanças no estilo de vida, uso de palmilhas, acupuntura, ondas de choque e bloqueios de nervo. Ou seja, basicamente tudo que a medicina moderna oferece antes de considerar a cirurgia.
Quando, mesmo após esses esforços, a dor continua limitando atividades do dia a dia, impedindo o trabalho, a prática de esportes, momentos com a família, viagens ou uma boa noite de sono, a cirurgia de prótese de joelho surge como uma solução.
Quando bem indicada, essa cirurgia não apenas alivia a dor, mas também melhora a mobilidade e devolve qualidade de vida, mudando (para melhor) a rotina do paciente.
Impacto da cirurgia na qualidade de vida
A cirurgia de prótese de joelho vai muito além de aliviar a dor articular, ela transforma a qualidade de vida do paciente. Um exemplo é o de um paciente que, após a colocação da prótese, conseguiu perder mais de 30 quilos. Com a melhora da mobilidade, ele voltou a se exercitar, cuidar da alimentação e recuperar o prazer de viver, algo que antes parecia impossível devido à dor.
Além do controle da dor, a cirurgia impacta positivamente em vários aspectos da saúde, como melhora da pressão arterial, controle do diabetes, qualidade do sono, humor, autoestima e até sintomas depressivos.
Eu costumo ressaltar que muitas pessoas dizem que não querem dar trabalho para a família, mas, na prática, quando vivem com dor e limitadas, acabam exigindo muito mais cuidado e atenção. Recuperar a mobilidade, portanto, não é apenas uma questão de conforto, mas também de autonomia e bem-estar geral.
Prótese de joelho: idade certa para a cirurgia
Os médicos originalmente pensaram e indicaram a cirurgia de prótese de joelho principalmente para pessoas mais velhas. E o cuidado maior deve ser evitar realizá-la em pacientes muito jovens, devido à durabilidade limitada da prótese e ao risco de necessidade de revisão futura.
Mais importante do que a idade em si é contar com uma equipe médica de confiança e experiente, já que a artroplastia é um procedimento complexo e exige indicação criteriosa. E, como eu sempre costumo falar: “Não caia na cilada de operar só porque o laudo do exame veio com a palavra artrose”.
Vale lembrar que o laudo não sente dor, quem sente dor é o paciente. Por isso, a decisão pela cirurgia deve ser baseada nos sintomas, na função e nas expectativas do paciente, e não apenas nos resultados de exames de imagem.
Além disso, a artroplastia traz ganhos importantes de expectativa e qualidade de vida. Hoje, o médico acompanha pacientes com 70, 80 e até 90 anos que continuam trabalhando e praticando esportes após a cirurgia. Considerando que muitas pessoas estão ultrapassando os 100 anos, quem tem mais de 75 e pensa que já é “tarde” para colocar uma prótese deve repensar: ainda é possível viver 10, 15 ou 20 anos com mobilidade, sem dor e com autonomia.
Riscos da artroplastia
Como qualquer cirurgia de grande porte, a artroplastia de joelho apresenta riscos que precisam ser avaliados com atenção. Tendo risco de infecção, trombose, embolia, rigidez articular, falha do implante, sangramento, lesão de nervo e, em casos muito raros, até morte.
É importante reforçar que, quando realizada por uma equipe experiente e com acompanhamento adequado, a probabilidade de complicações graves é pequena, enquanto os benefícios maiores.
Por isso, a decisão pela cirurgia deve ser tomada com cuidado, considerando risco, benefício e o perfil individual de cada paciente, garantindo a segurança e o melhor resultado possível.
Alternativas para quem não pode operar
Para pacientes que não podem passar pela cirurgia de prótese de joelho, seja por contraindicações médicas, idade jovem ou outros fatores. Existem alternativas que podem melhorar a dor e a função do joelho, mesmo após várias tentativas de tratamento conservador.
Uma das primeiras opções é a osteotomia, indicada especialmente para pessoas com menos de 60 anos e joelho arqueado (perna torta). Nesse procedimento, o cirurgião corrige o alinhamento da perna, transferindo o peso da área desgastada para a parte do joelho que ainda está saudável. Embora seja uma cirurgia invasiva, a grande vantagem é preservar o joelho original, permitindo adiar a prótese por muitos anos e até manter a prática de esportes. Por isso, a osteotomia é considerada uma cirurgia de preservação articular.
Outras alternativas incluem tratamentos minimamente invasivos e regenerativos, como o uso de ácido hialurônico, que ajuda a lubrificar a articulação e reduzir a dor. Em casos mais graves, pode ser realizado o bloqueio dos nervos geniculares, preferencialmente com radiofrequência. Esse método bloqueia os nervos que transmitem a dor do joelho ao cérebro, oferecendo alívio direto e rápido. É uma técnica mil vezes menos invasiva, sem cortes, apenas com pequenos furos para as cânulas de radiofrequência. Assim, permitindo que o paciente ande sem muletas logo após o procedimento.
É importante lembrar que o bloqueio tem limitações. Ele não resolve todos os tipos de dor, como as localizadas atrás do joelho, e não corrige o desalinhamento da perna. O efeito costuma durar alguns anos e o procedimento pode ser repetido se necessário.
Decisão sobre cirurgia de joelho: orientações para o paciente
A decisão de realizar a cirurgia de prótese de joelho é, acima de tudo, do próprio paciente. O papel do médico é orientar, mostrar os caminhos possíveis e apresentar os dados. Mas quem vive a dor e sente o impacto na rotina é quem sobe e desce escadas, anda na rua, levanta da cama e enfrenta o dia a dia com o joelho comprometido.
Se a qualidade de vida caiu e o paciente já tentou todos os tratamentos sem sucesso, talvez seja o momento de ter coragem e considerar a cirurgia. Por outro lado, adiar demais também pode aumentar o risco cirúrgico e fazer o paciente perder anos de vida com dor.
O ponto chave na escolha é decidir bem quem vai cuidar de você. Se a dor ainda está controlada e a pessoa consegue viver bem, muitas vezes vale a pena esperar mais um pouco. Lembrando que “a cirurgia de prótese é para tirar a dor do paciente, não para tratar o raio X”.
O mais importante é não tomar a decisão com pressa, mas também não empurrar com a barriga. Avaliar o momento certo, com informações corretas e orientação adequada, garante a segurança e o melhor resultado para a sua vida e mobilidade.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



