
Condropatia e condromalácia patelar: guia completo sobre lesões de cartilagem no joelho
Sentir dor no joelho ao subir e descer escadas, durante exercícios físicos ou após períodos prolongados sentado pode indicar uma lesão na cartilagem, conhecida como condropatia ou condromalácia patelar. Embora comuns, essas condições geram muitas dúvidas devido à complexidade e diversidade dos sintomas e tratamentos.
Neste artigo, você entenderá claramente o que são essas condições, suas causas, classificações, sintomas específicos, diagnóstico detalhado, tratamentos disponíveis, consequências de não tratá-las adequadamente, além de dicas essenciais para prevenção. Boa leitura!
O que são condropatia e condromalácia patelar?
Condropatia é um termo amplo que descreve doenças ou lesões na cartilagem do joelho. Por outro lado, condromalácia é uma palavra que tem origem do grego, “condro” no grego se refere a cartilagem, e “malácia” se refere à amolecimento. É preferível condropatia, que significa doença, ou lesão da cartilagem. Vamos explicar um pouco mais sobre essa parte quando abordarmos a classificação dos graus da condropatia.
Estrutura da cartilagem
A cartilagem é uma estrutura esponjosa, composta principalmente por colágeno tipo II e glicoproteínas, e é responsável por absorver impactos e permitir movimentos suaves entre os ossos do joelho. Algo importante sobre a cartilagem é que ela não possui vasos sanguíneos nem nervos, o que torna sua regeneração lenta e limitada, por isso que cura para a artrose ainda não foi encontrada. Além de não causar dor diretamente.
A seguir, o procedimento de artroscopia mostra melhor como é a cartilagem.


Função da cartilagem
Entre os ossos encontramos os meniscos, apontados pelas setas amarelas e os ligamentos apontados nas setas verdes, juntam os ossos entre si, para a articulação não sair do lugar, veja!

Contudo, para um bom funcionamento da articulação, a superfície de cartilagem precisa ser muito lisa, necessitando de uma boa lubrificação e movimento.
Como mencionado anteriormente, a cartilagem não tem terminações nervosas, logo, não causam dores. Mas por que a condropatia e/ou condromalácia e artrose manifestam dores intensas às vezes?
Quando há um desgaste profundo, por sobrecarga ou inflamação da articulação, isto é, atingindo o osso subjacente, as dores são intensas, já que diferente da cartilagem, o osso é altamente inervado.
Além disso, conforme a cartilagem vai gastando, ela vai liberando no líquido sinovial pedaços microscópicos. Em volta do joelho existe uma membrana, que se chama membrana sinovial, ela produz a maior parte do líquido da articulação e possui células de defesa.
Essas células de defesa são estimuladas pelos fragmentos da cartilagem induzindo a inflamação articular, e essa inflamação é responsável por parta da dor e também aceleração do desgaste articular.
É importante destacar que mesmo quando o desgaste não chega até osso diretamente, o mesmo fator que leva à sobrecarga e desgaste da cartilagem, também sobrecarrega o osso abaixo dela. Essa parte do osso leva o nome de osso subcondral, e pode adquirir um edema e inflamação, causando grandes dores ao paciente.
Além disso, principalmente no caso da condropatia ou condromalácia patelar, é observado um desequilíbrio de força e sobrecarga nos tecidos moles em volta da patela, levando também à muita dor.
Classificação das lesões cartilaginosas
Para facilitar a escolha do tratamento adequado, as lesões da cartilagem são classificadas em graus:
Grau 0
Cartilagem em seu estado normal;

Grau 1
Este grau é uma cartilagem praticamente normal, mas existem algumas fissuras muito leves ou um amolecimento, a qual costumamos de chamar de condromalácia.

Grau 2
Nessa condição, o paciente já se encontra com fissuras e uma erosão, ou seja, uma abertura na cartilagem, mas de forma ainda superficial. Na imagem abaixo (onde está a seta verde), é possível encontrar até mesmo um edema ósseo subcondral na patela.

Grau 3
Lesões profundas, atingindo mais da metade da espessura da cartilagem, mas, sem afetar o osso subcondral.

Grau 4
Apresenta a ausência completa da cartilagem, expondo o osso subjacente.

Veja nas imagens, uma ressonância da mesma pessoa, nela, conseguimos identificar com facilidade as lesões de cartilagem grau 4.


As setas em verde apontam onde há cartilagem, já as setas em amarelo indicam a falta de cartilagem.
Em algumas situações, devido a traumas ou condições como a osteocondrite dissecante, pode ocorrer o desprendimento de fragmentos no interior da articulação do joelho. Esses fragmentos, denominados corpos livres articulares, geralmente são compostos por cartilagem ou pela associação de cartilagem com osso. Por consequência, podem gerar dor e bloqueios mecânicos na articulação, principalmente quando ficam interpostos entre as superfícies ósseas durante o movimento, provocando sensação de travamento articular.

Essa classificação orienta o tratamento, sendo fundamental o diagnóstico preciso por meio da ressonância magnética ou artroscopia.
Na imagem seguinte, obtida por ressonância magnética, observa-se um fragmento osteocondral deslocado, caracterizado por uma região de cartilagem com osso subcondral mais escura, separada do côndilo femoral, com presença de líquido articular, representado pela cor mais clara, penetrando por trás desse fragmento.

Outra observação relevante é que, nesta fase, já é possível identificar sinais de artrose, geralmente descritos nos laudos radiológicos como artropatia degenerativa. Portanto, quando este termo estiver presente no relatório, refere-se à artrose.
Diagnóstico e sintomas
O diagnóstico correto envolve avaliação clínica detalhada dos sintomas e testes físicos específicos realizados pelo médico ortopedista. A ressonância magnética é essencial para avaliar a profundidade e extensão das lesões cartilaginosas, além de identificar outras possíveis lesões associadas, como rupturas ligamentares ou meniscais.
Pacientes com condropatia ou condromalácia patelar frequentemente relatam:
- Dor ao subir e descer escadas (principalmente ao descer);
- Dor ao agachar ou levantar-se;
- Desconforto ao permanecer sentado por longos períodos (“sinal do cinema”);
- Sensação de falseio ou instabilidade no joelho;
- Estalos ou rangidos ao movimentar o joelho;
- Eventual bloqueio da articulação devido a fragmentos soltos de cartilagem.
Veja abaixo, 3 imagens do joelho, com a cartilagem pintada de verde. Como podemos ver, a dor da lesão de cartilagem pode ser em qualquer uma dessas partes.


Na maioria das vezes, quando se menciona o termo condromalácia, fica subentendido que se trata da condromalácia patelar. Isso ocorre porque a cartilagem da patela é a estrutura cartilaginosa do corpo humano que está mais sujeita a sobrecargas, sendo, portanto, o local mais frequente de lesões.
A cartilagem da patela é, inclusive, a mais espessa do corpo humano.
Geralmente, a dor causada pela condropatia patelar é percebida na região anterior do joelho. No entanto, quando há condropatia em outras áreas do joelho, a dor pode ocorrer especificamente nessas regiões.
Avaliação
Ao avaliar um paciente com suspeita de condropatia, é importante realizar uma palpação minuciosa em todo o joelho para identificar a localização exata da dor. Além disso, recomenda-se realizar testes específicos para meniscos, especialmente quando a dor se apresenta mais nas laterais ou na região posterior do joelho, bem como avaliar os ligamentos, principalmente em casos que envolvam histórico de trauma.
A avaliação deve incluir tanto uma análise estática, com o paciente em pé e joelho estendido, quanto uma dinâmica, observando como o paciente realiza o movimento de agachamento.
Vale ressaltar que o exame clínico para condropatias não é tão específico quanto aqueles realizados para lesões ligamentares ou meniscais. Os testes utilizados na avaliação da condropatia femoropatelar envolvem principalmente a palpação das facetas articulares da patela durante o deslocamento lateral e medial dessa estrutura.
Outro teste importante é o que aumenta a pressão entre a patela e o fêmur, realizado empurrando-se a patela contra o fêmur em diferentes direções. Este teste frequentemente provoca aumento da dor quando o paciente contrai o músculo quadríceps da coxa. Testes chamados de Zohlen e Rabot.
Além disso, é importante observar o alinhamento da patela em relação à tuberosidade da tíbia, estrutura óssea localizada anteriormente na tíbia. Também é recomendável avaliar o trajeto realizado pela patela durante os movimentos de flexão e extensão do joelho

O exame de diagnóstico mais utilizado para complementar o exame físico, é o exame de ressonância magnética (RM).
A ressonância magnética é o método que permite avaliar com maior precisão a cartilagem articular, detectar inflamações ósseas e de tecidos adjacentes, além de ajudar na diferenciação entre a condropatia e outras lesões articulares, identificando inclusive lesões associadas.
Aspectos biomecânicos da articulação do joelho
Para o funcionamento adequado da articulação do joelho, é essencial que haja um encaixe preciso entre os ossos e um movimento harmônico entre eles.
Na visão superior obtida por ressonância magnética, observa-se que a face posterior da patela possui formato convexo em “V”, enquanto a tróclea femoral, estrutura localizada na região anterior e superior do fêmur, apresenta um formato côncavo, permitindo o encaixe adequado da patela.

Quando há alteração no formato dessas estruturas especialmente quando a tróclea se torna mais plana a patela tende a se deslocar lateralmente, o que aumenta o atrito e acelera o desgaste da cartilagem articular. Nos laudos, essa alteração pode ser descrita como displasia troclear ou tróclea rasa.

Embora a ressonância magnética seja o exame mais indicado para avaliar a integridade da cartilagem, a tomografia computadorizada com medidas específicas é o principal exame utilizado para analisar a anatomia da articulação patelofemoral. Um dos parâmetros avaliados nesse exame é o ângulo da tróclea.

A mesma tomografia permite mensurar a altura da patela, classificando-a como patela alta (quando está posicionada acima do ideal) ou patela baixa (quando está abaixo). Em ambos os casos, o desalinhamento compromete o encaixe com a tróclea e aumenta o risco de instabilidade e atrito.

Outros parâmetros na avaliação
Outros parâmetros importantes na avaliação do movimento da patela sobre a tróclea são o alinhamento entre o fundo da tróclea e a tuberosidade da tíbia, e a inclinação patelar.


Essas medidas indicam se a patela está deslizando adequadamente sobre a tróclea ou se há uma tendência de lateralização, que pode comprometer a biomecânica da articulação.
A imagem a seguir mostra uma patela visivelmente desalinhada em relação ao fêmur, demonstrando um encaixe inadequado.

Na próxima imagem, observa-se com ainda mais clareza a lateralização da patela. A linha amarela indica o limite da articulação do fêmur, e é possível perceber que boa parte da patela está posicionada para fora, além de já se observar uma lesão cartilaginosa.


Além disso, alterações no alinhamento global dos membros inferiores também afetam a distribuição de forças sobre o joelho. Indivíduos com joelhos mais voltados para dentro (valgo) ou para fora (varo) podem apresentar sobrecarga em áreas específicas da articulação.

A radiografia panorâmica é o exame indicado para avaliação objetiva do alinhamento dos membros inferiores. Nessa imagem, nota-se que, em casos de desalinhamento, a linha de carga passa predominantemente pela parte interna do joelho, o que aumenta o desgaste da cartilagem nessa região.

Quando negligenciada, a condropatia pode evoluir rapidamente, levando à dor crônica, perda da função articular e eventual desenvolvimento de artrose.
Principais causas e fatores de risco
Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento dessas condições:
- Fatores anatômicos: Patela alta ou baixa, displasia troclear (formato anormal da superfície articular), joelhos arqueados (varo) ou em X (valgo).
- Lesões prévias: Rupturas de menisco ou ligamentos.
- Sobrecarga mecânica: Excesso de peso, impacto repetitivo em atividades físicas e técnicas incorretas durante exercícios.
- Fraqueza muscular: Falta de fortalecimento muscular, especialmente no quadríceps e abdutores do quadril, que estabilizam o joelho.
A falta de força muscular, especialmente em grupos responsáveis pelo alinhamento e controle dos movimentos das pernas, compromete a estabilidade do joelho e aumenta a sobrecarga sobre a articulação.
Sem o suporte adequado dos músculos, o impacto das atividades recai diretamente sobre a cartilagem, favorecendo microtraumatismos e acelerando o desgaste articular. Além disso, tanto o excesso de peso corporal quanto a utilização incorreta de cargas nos exercícios contribuem para agravar esse estresse mecânico.
Comparando esses dois atletas de longa distância (abaixo) conseguimos entender melhor o que pode ser considerado um movimento inadequado e o impacto disso ao longo do tempo.
Na imagem da esquerda observamos um atleta longevo, que chegou a completar maratonas aos seus 99 anos de idade, graças ao seu alinhamento impecável das articulações do quadril, joelho e tornozelo.
Na imagem da direita, observamos outra atleta profissional, onde apresenta um desalinhamento importante entre o quadril, joelho e tornozelo, conhecido como valgo dinâmico. Esse desalinhamento, não costuma prejudicar a performance, mas cria sobrecargas excessivas na articulação, comprometendo a longevidade delas e por consequência acelerando o desgaste, levando à artrose.

Existem casos em que o paciente desenvolve condromalácia de grau 4 em menos de 1 ano de corrida realizada da forma errada, que muitas vezes é agravada pelo excesso de peso, comum em pessoas tantanto emagrecer com a corrida.
Execução do movimento
A execução do movimento muitas vezes pode ser mais importante do que a carga usada. Na musculação, por exemplo, o risco de lesão na cartilagem é consideravelmente reduzido com a técnica correta, mesmo com o uso de cargas elevadas.
No entanto, ao realizar os exercícios com postura inadequada e excesso de peso, esse risco se torna significativamente maior. Um estudo biomecânico clássico já demonstrava a relevância da técnica: os pesquisadores mediram a pressão exercida sobre o disco intervertebral da coluna de uma mesma pessoa levantando o mesmo peso, mudando apenas a postura da lombar.
Na imagem da esquerda, a lombar estava curvada; na da direita, mantida reta. O resultado foi impressionante, a má postura elevou a força sobre o disco em até 9,5 vezes, ou seja, um aumento de 950%. Isso evidencia o quanto a postura correta e o alinhamento adequado são determinantes para proteger as articulações e evitar sobrecargas desnecessárias.

Por outro lado, quando realizado de forma orientada e bem executada, o exercício físico tem um papel fundamental na proteção da cartilagem, pois o movimento controlado melhora a nutrição das células cartilaginosas.
Em resumo, o preparo físico adequado para cada tipo de atividade é essencial para preservar as articulações. Uma analogia interessante é comparar o corpo a um veículo: um carro de Fórmula 1 não foi feito para andar em estrada de terra, mas, em condições ideais, pode ter um desempenho extraordinário assim como o corpo humano, que, bem cuidado, é capaz de feitos incríveis, como o exemplo de um maratonista brasileiro que, aos 99 anos, ainda completava provas de longa distância.
Sintomas mais comuns
Pacientes com condropatia ou condromalácia patelar frequentemente relatam:
- Dor ao subir e descer escadas (principalmente ao descer);
- Dor ao agachar ou levantar-se;
- Desconforto ao permanecer sentado por longos períodos (“sinal do cinema”);
- Sensação de falseio ou instabilidade no joelho;
- Estalos ou rangidos ao movimentar o joelho;
- Eventual bloqueio da articulação devido a fragmentos soltos de cartilagem.
Tratamentos disponíveis
O tratamento varia conforme o grau da lesão e características individuais:
- Tratamento Conservador: Fisioterapia especializada, fortalecimento muscular adequado, controle de peso, mudança de hábitos alimentares e ajustes nos exercícios.
- Uso de Joelheira: Indicada para estabilizar e aliviar dores durante atividades diárias ou esportivas.
- Tratamento Cirúrgico: Aplicado principalmente em lesões avançadas ou quando o tratamento conservador não obtém resultados satisfatórios. Técnicas modernas incluem a remoção de fragmentos cartilaginosos e procedimentos reparadores ou reconstrutivos da cartilagem.
Se deseja saber todas as orientações sobre condropatia e condromalácia patelar, vale a pena ler este artigo.
Para saber mais sobre este e outros assuntos ligados a ortopedia, acesse o meu canal no YouTube.
Sou o Dr. Oliver Ulson, médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Realizo atendimentos presenciais em meu consultório particular em São Paulo e Alphaville ou por telemedicina.



