
Dor durante o treino: O que pode tomar e o que deve evitar?
Embora pareça algo óbvio, é muito comum ver pessoas realizando exercícios de forma incorreta. Estudos mais recentes trouxeram mudanças importantes na forma de tratar determinadas lesões. Por isso, o objetivo deste artigo é contribuir com pacientes e com outros profissionais da área da saúde, ajudando a promover condutas mais eficazes e atualizadas. Boa leitura!

Antes de falar sobre os remédios, é essencial entender a diferença entre contratura, distensão, ruptura muscular, dor pós-exercício e dores miofasciais, cada uma exige um tipo de tratamento específico. Afinal, o sucesso da recuperação depende diretamente de identificar corretamente o tipo de lesão.
Como diferenciar as contraturas, câimbras, rupturas, distensões, dores miofasciais, fibromialgia e dor muscular tardia?
Contratura muscular
A contratura, como o próprio nome diz, é uma contração muscular involuntária e prolongada que não relaxa sozinha. Ela costuma causar dor e rigidez muscular, é comum em situações de estresse, esforço físico intenso ou posturas inadequadas.
A contratura muscular pode acontecer em várias situações do dia a dia: na coxa durante uma partida de futebol, na lombar ao levantar um peso ou até no pescoço, o clássico torcicolo.
Câimbras
A famosa câimbra é bastante parecida com a contratura, mas tem suas particularidades. Trata-se de um espasmo súbito de todo o grupo muscular, geralmente causado por esforço intenso e desequilíbrio de água e sais minerais no organismo.
Vale lembrar que algumas doenças também podem favorecer o surgimento de câimbras, por isso é sempre importante investigar a causa com atenção.
Miofascial
Já a dor miofascial é causada geralmente por contraturas em pontos específicos nos músculos, chamada popularmente de nó muscular, ou ponto gatilho.
Quando a contratura não relaxa com o tempo, a circulação piora, surge inflamação e a dor pode irradiar. Ao examinar, é comum encontrar um ponto específico de tensão, como um “nó” no músculo, e, em alguns casos, até a fibra muscular toda fica endurecida.
Rupturas e distensões
No caso das rupturas e distensões, elas acontecem quando as fibras musculares se esticam além da sua capacidade e acabam se rompendo.
A distensão é considerada um caso mais leve que a ruptura, mas elas acabam sendo problemas parecidos. Mais comuns nas atividades esportivas ou esforços intensos.
Os principais sintomas são a dor intensa, inchaço, hematoma e incapacidade de movimentar o músculo e às vezes, principalmente na ruptura muscular, pode ficar roxo e sentir um buraco no músculo.
Dor muscular tardia
Sabe aquela dor que aparece de 1 a 3 dias depois de um treino mais puxado? É a dor muscular tardia, ou DMT (também chamada de DOMS). Ela é bem comum, especialmente em quem está voltando aos treinos ou exagerou na intensidade.
Aliás, vale uma observação importante: ao contrário do que muitos dizem, a dor muscular tardia não é causada pelo acúmulo de ácido lático. Estudos mostram que o corpo elimina esse ácido rapidamente. Atualmente, a explicação mais aceita é que a DMT ocorre por microlesões nas fibras musculares provocadas durante o esforço físico.
Esses danos musculares microscópicos desencadeiam uma resposta inflamatória no corpo, levando ao inchaço e sensibilidade nos músculos afetados. Além disso, parece ocorrer a sensibilização de neuro receptores de dor nos músculos, o que pode aumentar a sensação da dor.
Fibromialgia
A fibromialgia trata-se de uma condição crônica, em que a forma como o corpo percebe a dor está alterada. É caracterizada por dor difusa, fadiga, distúrbios do sono e sensibilidade aumentada ao toque. Diferente de outras lesões, não há um dano direto ao músculo, mas sim uma amplificação da dor pelo sistema nervoso.
Com essas diferenças bem compreendidas, fica muito mais fácil identificar o tratamento mais adequado para cada tipo de dor.
Como é o tratamento com medicamentos para contraturas, câimbras e dores miofasciais?
Essas lesões — contratura, câimbra e dor miofascial — estão agrupadas porque todas têm algo em comum: o espasmo muscular persistente e involuntário, ou seja, o músculo se contrai sem que a pessoa queira ou consiga controlar.
A contratura geralmente é uma resposta de defesa do músculo a um esforço intenso. Já a câimbra está mais relacionada à fadiga, desidratação e desequilíbrio de sais minerais.
Por isso, além de tentar corrigir esse problema com bebidas isotônicas, tipo o Gatorade, uso de compressa quente e outras medidas físicas, pode-se usar relaxantes musculares e analgésicos para soltar o espasmo muscular e aliviar a dor.
De analgésicos, pode usar vários, desde que o paciente não tenha alergia e contraindicação, tipo:
- Dipirona;
- Paracetamol;
- Codeína;
- E tramadol.
Os relaxantes musculares, pode usar o coltrax, na versão intramuscular ou via oral ou também pode usar os clássicos:
- Ciclobenzaprina (miosan ou musculare)
- Ou o baclofeno.
Outras opções que também têm relaxante, são:
- Dorflex;
- Tandrilax;
- Infralax;
- Mioflex A etc.
Esses têm também anti-inflamatórios e analgésicos.
Em atletas, costuma-se evitar o uso de anti-inflamatórios sistêmicos, já que eles podem atrapalhar a recuperação muscular. Mas, em momentos de crise, não tem muito o que fazer.
Nesses casos, indica-se combinar relaxante muscular com analgésico e aplicar um anti-inflamatório local. Pode ser uma pomada ou emplastro, como o Salonpas, mas é preferível opções mais potentes, como loxoprofeno ou diclofenaco.
Como a câimbra costuma passar mais rápido, geralmente dá para suspender o uso assim que o espasmo muscular cessar.
Na dor miofascial, como começa com o espasmo do nó persistente, é preciso usar o relaxante muscular de forma mais intensa e prolongada, até ele sumir e às vezes, pode demorar até algumas semanas.
O anti-inflamatório é indicado apenas nos primeiros dias, pois o uso continuamente pode fazer muito mal além de prejudicar a recuperação muscular.
Qual o tratamento indicado para distensão e ruptura muscular?
A distensão muscular acaba sendo mais leve que a ruptura, dá para fazer um tratamento parecido com o da contratura, com analgésico, relaxante muscular e às vezes o anti-inflamatório, porém, pode ser difícil de diferenciá-la de uma ruptura.
No caso da ruptura muscular, existe um sangramento, formação de um hematoma e um processo inflamatório no lugar onde está a lesão no músculo. Esse hematoma e a inflamação são fundamentais para ocorrer a cicatrização correta do músculo.
Alguns estudos mostraram que usar anti-inflamatórios nas primeiras 72 horas após a ruptura prejudicava a cicatrização do músculo ficando uma cicatriz frágil. Por isso, o ideal é que as pessoas comecem a tomar o anti-inflamatório apenas 72 horas depois, antes disso, é mais analgésico e relaxante muscular mesmo.
Quando a dor está muito forte, não tem jeito: às vezes precisamos lançar mão de um analgésico mais potente, como codeína ou até tramadol.
Para saber mais sobre esses medicamentos citados, leia este artigo.
O que deve ser feito em casos de dor muscular tardia?
A dor muscular tardia (DMT/DOMS), aquela que aparece só depois de 1 a 3 dias do treino, tem algumas características bem diferentes das lesões que falei até agora. Mas por que isso? Como citado, essa dor vem por causa dessa inflamação pela sobrecarga muscular e micro lesões, esse processo de adaptação e recuperação muscular envolve em parte uma resposta à inflamação gerada pelo esforço.
Alguns estudos mais recentes mostram que microlesão muscular não é o principal fator para o aumento das fibras musculares. Aliás, vale abrir um parêntese para acabar de vez com um mito bastante comum: a hipertrofia e o ganho de força não são processos tão simples quanto muita gente imagina.
O aumento do volume muscular envolve vários fatores, como o acúmulo de proteínas contráteis, glicogênio, creatina, organelas e até o aumento da vascularização local. Já o ganho de força não depende apenas da hipertrofia em si, ele também está diretamente ligado à adaptação neural, ou seja, ao modo como o sistema nervoso passa a recrutar melhor as fibras musculares.
A hipertrofia muscular acontece, em parte, pela reparação de microlesões, mas o principal estímulo vem da mecanotransdução, um nome complicado para algo simples: é quando o músculo transforma o esforço físico em sinal bioquímico, estimulando a produção de proteínas e adaptação celular. Por isso, usar anti-inflamatório logo após o treino pode atrapalhar esse processo, ainda que não o bloqueie totalmente.
Falar sobre o tratamento correto das lesões musculares é fundamental, já que são uma das queixas mais comuns em quem pratica atividade física. Mas é importante lembrar que tendinites, entorses, contusões e lesões por esforço repetitivo também merecem atenção.
Entenda a melhor forma de usar esses remédios
Analgésicos como dipirona e paracetamol não atrapalham o treino, mas usar com frequência pode mascarar a dor e piorar a lesão. Relaxantes musculares também não prejudicam a recuperação, mas se usados antes do exercício podem reduzir a performance. O ideal é tomar após o treino, para ajudar no relaxamento e na recuperação muscular.
Já os anti-inflamatórios esse sim, são os piores. Principalmente os corticoides, eles não costumam afetar a performance nos treinos. O corticoide sistêmico pode até melhorar o desempenho e, por isso, é considerado doping em competições. Por isso, é sempre bom conferir a lista atualizada da WADA e, se houver indicação médica, usar a autorização de uso terapêutico (AUT).
Por outro lado, o uso após o treino pode atrapalhar a recuperação muscular. Corticoides, por exemplo, têm efeito catabólico, ou seja, podem levar à perda de massa muscular, além de mascararem a dor e dificultarem a identificação da real causa da lesão.
Em caso de dor intensa, um anti-inflamatório pode ser usado pontualmente, mas sempre que possível, a preferência é por analgésicos e relaxantes musculares. Como já citado, uma solução é usar os anti-inflamatórios tópicos em adesivo, gel ou creme.
Dependendo da região da dor, algumas abordagens funcionam muito bem, especialmente em casos de dores mais superficiais. Voltando à dor muscular pós-exercício, um estudo com atletas mostrou que a curcumina ajudou a reduzir a inflamação intensa após o treino e pode acelerar a recuperação.
Ela tem ação analgésica e anti-inflamatória, mas com um mecanismo diferente dos anti-inflamatórios tradicionais, o que a torna uma boa alternativa para quem sofre com esse tipo de dor com frequência. É daí que veio essa moda do “shot de cúrcuma” pela manhã.
Caso queira saber mais, leia o artigo sobre cúrcuma.

Observações importantes
É importante notar que alguns remédios e doenças pioram muito a dor muscular ou as tendinites, inclusive levando a ruptura de tendão.
As estatinas, que são remédios muito comuns usados para tratar o colesterol alto, estão muito associadas com mialgia, ou seja, dor muscular, é por isso que costuma se indicar a tomar só à noite.
Já remédios como antibióticos, como ciprofloxacina, e os próprios corticóides e alguns outros esteroides levam a degeneração, ou seja, enfraquecimento do tendão, podendo levar até a ruptura.
Sempre que possível, o ideal é adaptar o treino em vez de parar totalmente por causa de uma lesão. Mas é essencial tratar corretamente desde o início, para evitar que o problema vire algo crônico.
Os medicamentos costumam ser só o primeiro passo, a recuperação completa envolve alongamentos, exercícios, compressas e outras terapias, entenda mais lendo este artigo.
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Para saber mais sobre os remédios indicados e os não indicados, acesse o canal do YouTube do Dr. Oliver Ulson.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



