
Lesão degenerativa e lesão complexa do menisco: O que significa e como tratar
Neste conteúdo, vamos falar sobre dois termos que aparecem com frequência nos laudos de ressonância, especialmente em pacientes acima dos 40, 50 anos: as lesões degenerativas e as lesões complexas do menisco.
Portanto, se você já recebeu esse diagnóstico e ficou em dúvida sobre o que isso quer dizer, ou se está tratando uma dor no joelho e ouviu que o seu menisco está “todo gasto”, “com várias rachaduras” ou que “não tem mais como costurar”, esse artigo é para você.
O que é o menisco e para que ele serve
Explicando resumidamente, o menisco é uma estrutura de fibrocartilagem, parecida como a do nariz e joelho. Em cada joelho a gente tem dois meniscos, eles têm a forma de semi-lua e são muito importantes para proteger a cartilagem da articulação, contra o desgaste.
Os meniscos são essas estruturas em verde aqui nas imagens:

Assim, por conta do formato e da região que eles estão, as dores do menisco geralmente são na linha da articulação e podem causa dor irradiando pra frente, para trás e para as laterais dos joelhos.

Lesões degenerativas do menisco: o que são e como surgem
Agora vamos entender o que são essas lesões degenerativas e as lesões complexas.
As lesões degenerativas do menisco são aquelas que não acontecem por um trauma direto, como uma entorse ou uma pancada. Elas se desenvolvem aos poucos, ao longo do tempo, por causa de microtraumas repetidos, sobrecarga, desalinhamento do joelho, fraqueza muscular ou até fatores genéticos e anatômicos acumulados ao longo dos anos.
É como se o menisco fosse envelhecendo junto com o resto do corpo. Na maioria das vezes isso é normal, mas em algumas pessoas o processo é mais lento, enquanto em outras ele é muito mais rápido.
Geralmente, a gente começa a ver essa degeneração do menisco na ressonância a partir dos 40 anos de idade.
Identificando um menisco degenerado na ressonância
Veja aqui nessas imagens de ressonância a diferença entre um menisco jovem e um mais velho, com degeneração.

Menisco jovem
E nessas imagens você consegue ver um menisco degenerado; repare que um é totalmente preto e o degenerado está mais branco no meio.
Esse joelho tem artrose e, inclusive, o menisco está extruso e com perimeniscite, ou seja, está deslocado pra fora e com edema e inflamação.

Menisco degenerado
Isso vai acontecendo porque as fibras do menisco perdem elasticidade, a matriz de colágeno vai se desorganizando e começam a aparecer fissuras, fendas e depois rachaduras maiores.
Menisco normal x menisco degenerado: comparação por artroscopia
Pra você entender melhor, vamos comparar um menisco normal jovem e um degenerado nessas artroscopias.

Menisco normal olhando por artroscopia

Menisco degenerado
Veja como o menisco degenerado começa a se desfazer, parecido com uma calça jeans bem usada.
Essas lesões são mais comuns no menisco medial (o de dentro do joelho) e costumam vir acompanhadas de outros sinais de desgaste, como condropatia ou artrose.
Ou seja, quando a gente encontra uma lesão degenerativa, muitas vezes o joelho já está em um estado de sofrimento generalizado, igual no exemplo mostrado anteriormente.
Quando o desgaste evolui para uma lesão complexa
Quando esse desgaste vai se acumulando e o menisco passa a apresentar mais de uma lesão ao mesmo tempo, com padrões diferentes. Por exemplo, uma parte com fissura horizontal, outra com ruptura vertical e outra com fragmento instável, chamamos isso de lesão complexa.
Aqui nessa outra imagem de ressonância você consegue ver uma lesão complexa degenerativa do menisco medial; repara como tem linhas brancas em diferentes planos:

Agora, presta atenção: é mais comum encontrar lesões complexas em meniscos degenerados, mas elas também podem acontecer em jovens e depois de traumas. Por exemplo, semana passada, operei um paciente menor de idade com uma lesão complexa.
Às vezes, o radiologista também lauda uma lesão em bico de papagaio como lesão radial e longitudinal, porque esse tipo de lesão tem um padrão em dois planos.
As lesões complexas podem ter vários padrões diferentes, por isso a imagem do exame nesses casos é muito importante.
As lesões degenerativas e complexas têm cura?
Agora, pra organizar esse raciocínio antes de falar do tratamento, é importante entender: lesão degenerativa é o desgaste progressivo do menisco ao longo do tempo, e lesão complexa é um menisco com mais de uma fissura/ ruptura em planos e sentidos diferentes.
Além disso, é mais comum no menisco degenerado, mas pode raramente acontecer em um menisco jovem e sadio depois de um trauma maior.
Com isso em mente, chegamos à pergunta que muita gente faz: “Doutor, mas essa degeneração e lesão complexa têm cura?”
E a resposta honesta é: cura no sentido de voltar a ter um menisco intacto, novinho em folha, infelizmente não.
Eu gostaria muito de falar que sim, mas meu compromisso é com a verdade e se alguém falou que sim, isso é papo de vendedor.
Por que o menisco degenerado não costuma cicatrizar
O menisco degenerado não cicatriza bem sozinho e, na grande maioria dos casos, essas lesões não são passíveis de sutura.
Isso acontece porque o tecido está frágil, com vascularização ruim, e as bordas não seguram ponto.
Se a gente tentar costurar, é comum o menisco rasgar no ponto ou não cicatrizar direito, porque a circulação dele está prejudicada, assim, a chance de falha é altíssima.
Além disso, a recuperação da sutura é muito demorada. Por isso, o foco do tratamento não deve ser só no menisco em si, mas no joelho como um todo.
Um parêntese importante sobre pacientes jovens com lesões complexas
Eu só vou fazer um breve parêntesis, pra não correr o risco de confundir a sua cabeça.
Como a maioria das lesões complexas tem uma origem degenerativa, eu vou falar agora sobre as lesões degenerativas simples e complexas, geralmente em pessoas acima dos 40-50 anos.
E pra não deixar o pessoal mais novo com lesão complexa sem assistência, eu preciso dar essa breve explicação.
No caso dos pacientes jovens com lesões complexas depois de alguma torção ou outro tipo de trauma, a gente procura olhar individualmente cada padrão de ruptura e ver qual é o melhor tratamento nesse caso. Por exemplo, se tem uma lesão radial + lesão horizontal ou vertical longitudinal.
Tratamento conservador: a primeira escolha na maioria dos casos
Na maioria dos casos, o primeiro passo é o tratamento conservador. Porém, para funcionar de verdade, ele precisa ser bem feito e, hoje, existem muitas opções modernas que tornam esse processo mais eficiente.
Quando falo em tratamento conservador, não estou me referindo àquelas 10 sessões de fisioterapia de convênio, feitas apenas com gelo e choquinho.
O objetivo aqui é outro: um protocolo completo, estruturado e direcionado. Isso inclui fortalecimento específico, reeducação de movimento, melhora do padrão de marcha, ganho de mobilidade e controle da sobrecarga.
A ideia é compensar a perda do menisco com um joelho mais estável, mais forte e melhor alinhado. Para isso, entram elementos como ativação do quadríceps, glúteo médio e core, treino de equilíbrio e, quando necessário, adaptação de palmilhas ou ajuste de calçado.
Eu estou colocando aqui 3 artigos internacionais atuais, todos com alto nível de evidência científica, que mostram que a cirurgia, na maioria das vezes, não traz benefícios nesse tipo de lesão. E, por isso, o tratamento conservador deve ser a primeira linha de indicação. Veja:



O papel das infiltrações, ondas de choque e terapias biológicas
Além disso, em alguns casos, a gente pode usar infiltrações com ácido hialurônico, que melhoram a lubrificação da articulação e ajudam a reduzir os sintomas e a inflamação.
Em pacientes selecionados, outras abordagens biológicas mais modernas, bloqueios nervosos ou ondas de choque também podem ser considerados.
Por exemplo, a onda de choque ajuda a tratar os casos com perimeniscite e edema ósseo associado à essas lesões. Além disso, ele estimula a produção de colágeno novo, aumento de células novas e vasos sanguíneos.
Entretanto, é muito importante não confundir o tratamento com ondas de choque com aqueles equipamentos que dão choque elétrico na fisioterapia.
A onda de choque é um tratamento médico, baseado em uma onda mecânica de alta intensidade.
Os outros tratamentos biológicos com infiltrações têm mostrado resultados promissores, mas ainda não existe uma evidência forte que comprove que eles regeneram totalmente esses meniscos.
Como eu disse, isso ainda é papo de vendedor, mas, como a medicina é uma ciência de verdades transitórias, isso pode mudar no futuro. Afinal, o ovo, a carne de porco e o café já foram grandes vilões e agora viraram mocinhos.
Quando a cirurgia é indicada nas lesões degenerativas e complexas
A cirurgia é uma opção quando, mesmo depois de um tratamento conservador bem-feito, o paciente continua com dor incapacitante, que limita a vida diária, impede o sono ou o trabalho, e que claramente está relacionada ao menisco instável.
Um prazo adequado para esperar o efeito do tratamento conservador são 3 meses, tratando direito.
Nesses casos, a cirurgia indicada costuma ser a meniscectomia parcial, ou seja, a retirada apenas dos fragmentos que estão soltos e causando problema.

Flap instável do menisco
Mas atenção: quanto mais menisco a gente tira, maior o risco de acelerar o desgaste da cartilagem. Por isso, a gente evita de operar e quando opera a gente tira o mínimo possível, ou seja, só o que for realmente necessário pra aliviar os sintomas.
E tem um detalhe que pouca gente comenta: em alguns pacientes com artrose mais avançada, tirar o menisco pode até piorar a dor. Porque o menisco, mesmo que machucado, protege mais do que sem nada entre as cartilagens.
Por que a decisão cirúrgica não deve ser baseada só na ressonância
Por isso, a decisão cirúrgica deve ser feita com muito critério, e nunca baseada só no laudo da ressonância.
Aliás, isso é algo que eu repito pra todos os meus pacientes: o laudo do exame mostra a imagem, mas não mostra quem é o paciente e nem o impacto real na sua vida.
Tem gente com laudo cheio de lesão, mas sem dor nenhuma. E tem gente com uma lesão pequena sofrendo demais. Por isso, o diagnóstico certo exige escutar o paciente, examinar o joelho e entender o contexto.
E, com isso, muita gente já fez cirurgia desnecessária porque ninguém explicou que o problema era degenerativo e o foco tinha que ser diferente.
Conclusão: o que esperar do tratamento das lesões degenerativas e complexas
Pra encerrar: lesões degenerativas e complexas do menisco não são sentenças de cirurgia.
Na maioria dos casos, a gente consegue controlar a dor, melhorar a função e evitar cirurgia por muito tempo, com um plano de reabilitação bem-feito e com vários tratamentos médicos novos.
Mas quando a cirurgia for necessária, que ela seja mínima, planesó intervir quando realmenser operadas o quanto antes. só intervir quando realmente for necessário.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



