Lesão horizontal do menisco: o que é, por que acontece e como tratar 

Se você já recebeu um laudo de ressonância com esse nome e ficou com dúvidas, ou se está tratando uma dor no joelho e ouviu do médico que o seu problema pode ser uma lesão horizontal do menisco, fique até o fim deste artigo. 

Eu vou te explicar com clareza o que é essa lesão, por que ela acontece, quem tem mais risco de desenvolver, o que ela causa no joelho e como a gente trata, com e sem cirurgia.

O que é o menisco e qual a sua função

O menisco, como eu já expliquei em outros artigos, é aquela estrutura em forma de meia-lua que fica entre o fêmur e a tíbia, dentro do joelho.

Ele funciona como um coxim ou amortecedor, distribuindo a carga que passa por ali e protegendo a cartilagem contra o desgaste.

Cada joelho tem dois meniscos: um medial, na parte de dentro, e outro lateral, na parte de fora do joelho. Veja o exemplo aqui nessas imagens: 

Entretanto, existem vários tipos de lesão de menisco, e cada uma tem um tratamento diferente.

O que é a lesão horizontal do menisco

Quando a gente fala em lesão horizontal, estamos falando de uma ruptura que divide o menisco em duas camadas. Como por exemplo, duas fatias de pão de forma separadas entre si, com uma parte pra cima e outra pra baixo.

Ela acontece paralelamente à base do menisco, formando uma fenda que pode ir se estendendo com o tempo.

Na ressonância magnética, elas aparecem assim: o menisco é essa estrutura preta, meio triangular, e a lesão é a linha branca geralmente paralela à superfície superior do menisco, apontada pela seta amarela.

O menisco normal geralmente aparece como um triângulo totalmente preto, como você consegue ver nessa outra imagem:

Essas lesões são muito comuns no menisco medial e acontecem com mais frequência em pessoas acima dos 40 anos. Principalmente aquelas que já têm algum grau de artrose, ou seja, de desgaste na articulação.

Por que a lesão horizontal acontece

Ao contrário das lesões traumáticas que acontecem por um movimento específico (como, por exemplo, as lesões em alça de balde), a lesão horizontal geralmente é degenerativa.

Ela vai se formando aos poucos, pela repetição de carga e microtraumas que, ao longo dos anos, enfraquecem a estrutura interna do menisco.

Entretanto, muitas lesões horizontais são assintomáticas. Isso significa que a pessoa pode ter uma lesão dessas aparecendo na ressonância e mesmo assim não sentir dor. Por isso, a presença desse tipo de lesão no exame não é, por si só, uma indicação de cirurgia.

A importância da avaliação individual

O que realmente importa, e vai determinar o melhor tratamento, é a avaliação da história, dos sinais e sintomas e do perfil do paciente.

A avaliação individualizada é importante para uma boa conduta, tanto quando o paciente não sente nada quanto quando apresenta dor, travamento, limitação ou outros sinais de que a lesão está incomodando.

E é aqui que entra a parte prática: como a gente trata esse tipo de lesão?

Tratamento conservador

A primeira abordagem (e a mais comum) é o tratamento conservador.

Isso porque, na grande maioria dos casos, a lesão horizontal não é instável. Ou seja, ela não fica se mexendo dentro do joelho nem causa bloqueios mecânicos.

O menisco fica preso na articulação na margem de fora, e a parte interna é solta. Veja nesse vídeo de artroscopia como é um menisco normal dentro do joelho:

Agora olha essa imagem de um menisco com uma lesão horizontal. A parte externa continua presa, então funciona como se houvesse dois meniscos, um sobre o outro, e é difícil que essa estrutura saia do lugar.

O foco do tratamento conservador é controlar a dor, melhorar o padrão de movimento, fortalecer e reequilibrar a musculatura e proteger o joelho contra sobrecarga.

Isso inclui fisioterapia com fortalecimento de quadríceps, glúteos e panturrilha, além de mobilidade de quadril e tornozelo, e exercícios para melhorar a absorção de impacto.

Como é comum essas lesões aparecerem em quem tem pernas arqueadas, muitas vezes vale a pena fazer radiografias panorâmicas. Às vezes, só melhorar o alinhamento já reduz a dor.

Opções modernas antes da cirurgia

Além disso, antes de pensar na cirurgia, existem tratamentos novos e menos invasivos.

Terapia por ondas de choque

A onda de choque ajuda nos casos de perimeniscite e edema ósseo, comuns nesses pacientes.

Entretanto, ela não fará a lesão sumir. Ela trata os problemas associados, assim, diminuindo a dor e permitindo seguir a vida normalmente.

Além disso, ela reduz a inflamação e estimula síntese de colágeno, proliferação de fibroblastos e vasos sanguíneos, melhorando um pouco a qualidade desse menisco. 

Infiltrações biológicas

Outra forma de tratar é com infiltrações biológicas feitas no consultório.

Um exemplo é a infiltração com ácido hialurônico, que melhora a lubrificação do joelho e reduz a inflamação local, principalmente quando há artrose leve associada.

Medicações de suporte

Em alguns casos, podemos usar analgésicos, anti-inflamatórios e fitoterápicos, sempre com acompanhamento, para evitar efeitos colaterais.

Inclusive, se você precisa usar esses remédios com frequência, vale repensar o tratamento, porque exagerar nesses medicamentos pode ser mais arriscado do que a própria cirurgia.

Quando a cirurgia é indicada

A cirurgia é indicada quando o paciente já tentou o tratamento conservador completo, como uma fisioterapia bem-feita, controle de peso, mudança no padrão de carga e todas aquelas outras opções, e mesmo assim a dor persiste, impactando a qualidade de vida.

Além disso, se a lesão horizontal evoluir com uma aba ou flap instável, que se desloca para dentro da articulação ou para fora, entre o osso e o ligamento colateral, a cirurgia pode ser indicada antes.

Veja uma ressonância de um paciente com lesão horizontal em que a parte de cima do menisco se soltou e deslocou para o meio da articulação, apontada pela seta vermelha:

Nesses casos, fazemos uma meniscectomia parcial, retirando apenas a parte solta e preservando o restante do menisco íntegro.

Aqui você consegue ver o vídeo dessa artroscopia, onde eu precisei remover essa parte do menisco porque estava muito instável e não cicatrizaria direito:

A importância de preservar o menisco

E aqui entra um ponto que eu sempre reforço com meus pacientes: quanto menos menisco a gente tira, melhor para o joelho.

A cirurgia deve ser feita com critério, focando em resolver o que causa o sintoma, e não simplesmente “limpar o menisco”, como muita gente fala por aí.

Inclusive, se você ouviu que tem uma lesão horizontal e que “tem que operar porque o exame mostrou”, desconfie. Afinal, o exame mostra imagem, mas quem sente dor é o paciente.

Por isso, a decisão de operar deve ser baseada na clínica, no exame físico e na falha do tratamento conservador, e não apenas na imagem da ressonância.

Conclusão: a lesão horizontal e a função do menisco

E reforçando mais um ponto importante: Lesão horizontal não significa que o menisco não tem mais função.

Pelo contrário, muitas vezes, mesmo com a lesão, o menisco ainda está parcialmente funcional, e remover essa estrutura pode piorar o desgaste do joelho, especialmente quando o paciente já tem artrose.

Por isso, o foco deve ser preservar ao máximo a estrutura natural e só intervir quando realmenser operadas o quanto antes. só intervir quando realmente for necessário.


O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.