Ligamento cruzado anterior: As vantagens e desvantagens do tratamento de LCA com e sem cirurgia

Os tratamentos das lesões do LCA têm evoluído ano após ano, a perspectiva é que continue mudando com avanço de novas tecnologias e outros tratamentos.

Se você sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior e ainda não passou por cirurgia, entenda quem realmente precisa operar e quem pode optar pelo tratamento conservador. Descubra as vantagens e desvantagens de cada abordagem, comparando riscos e consequências para tomar a melhor decisão, neste artigo. Confira!

Entenda o que é o cruzado anterior (LCA)

Em cada joelho existem 2 ligamentos cruzados, os cruzados são fitas bem resistentes que ficam no centro do joelho, conectando os ossos do fêmur e da tíbia.

As imagens abaixo mostram duas estruturas destacadas em verde: a da frente, indicada pela seta vermelha, é o ligamento cruzado anterior, enquanto a de trás, marcada pela seta amarela, é o ligamento cruzado posterior.

Vista anterior / Vista posterior

Os cruzados são muito importantes para o joelho, pois dão estabilidade entre o fêmur e a tíbia, para a articulação não ficar com jogo, frouxa, sobrecarregando as outras partes do joelho. Principalmente para tíbia não ir para a frente e para trás, ou ter instabilidade nos movimentos de torção.

O joelho funciona como uma engrenagem, se uma peça está frouxa, o desgaste acelera. Uma lesão no ligamento não tratada corretamente pode levar à degeneração do menisco e da cartilagem, favorecendo a artrose.

Os principais sintomas da lesão do cruzado anterior são:

  • Dor e falseio;
  • Sensação de que o joelho falha ou sai do lugar.

Logo após o trauma, é comum que o paciente sinta dor, limitação do movimento e dificuldade de movimentar por causa do inchaço e inflamação. Mas depois de poucas semanas de gelo e anti-inflamatórios, muitos pacientes não demonstram sinais evidentes da lesão, pois a instabilidade pode ser sutil.

O falseio e a dor não são constantes; eles surgem principalmente em movimentos de torção ou esforço maior, como na prática esportiva. Alguns pacientes passam anos sem grandes sintomas, mesmo com o ligamento rompido. No entanto, a dor tende a voltar com o desgaste das outras estruturas do joelho. O ideal é tratar antes que isso aconteça.

Quais os graus de lesão do LCA?

As lesões ligamentares são classificadas em três graus:

  • Entorse sem ruptura;
  • Ruptura parcial;
  • Ruptura total.

Essas lesões são avaliadas pelo exame físico e de imagem. O exame físico mede a frouxidão do ligamento, mas por ser subjetivo, a imagem é essencial para um diagnóstico preciso.

Muitos pacientes contraem a coxa durante o exame, o que pode mascarar a lesão ao aumentar a estabilidade do joelho. Por isso, além do exame físico, é essencial avaliar outros critérios para definir a necessidade de cirurgia.

Quais os critérios de indicação para a cirurgia do LCA?

Os critérios de indicação para a cirurgia do LCA incluem:

Idade: quanto mais jovem o paciente, mais tempo ele pode ficar com um joelho sem LCA, aumentando muito o risco de lesão de outras partes, e por consequência, artrose precoce.

Imagine duas pessoas idênticas, ambas com 60 anos. Uma rompeu o LCA aos 20 e viveu 40 anos com o joelho instável, enquanto a outra sofreu a lesão aos 55 e ficou apenas 5 anos sem o ligamento. Qual joelho você acha que sofreu mais desgaste?

Por isso, quanto mais jovem for a pessoa, maior o impacto de ficar sem o LCA.

Nível de atividade: imagine duas pessoas idênticas que romperam o LCA na mesma idade e têm o mesmo peso. Uma joga futebol, enquanto a outra passa o tempo jogando videogame. Quem você acha que vai desgastar mais o joelho? A pessoa mais ativa, certo?

Quanto maior o nível de atividade, mais importante é reconstruir o ligamento, especialmente em esportes que exigem estabilidade, como futebol e basquete. Além disso, é fundamental avaliar se o paciente sente falseios no joelho, combinando relato e exame físico para comparar a firmeza da articulação.

Grau da lesão do LCA: o grau da lesão do LCA e lesões associadas, como menisco, ligamentos, cartilagem ou artrose, são decisivos para o tratamento. O alinhamento das pernas também influencia na recuperação. Lesões no menisco podem piorar sem a reconstrução do LCA, enquanto danos no ligamento colateral aumentam a instabilidade. Já em pacientes mais velhos com artrose, a cirurgia pode não ser a melhor opção, pois a dor pode persistir.

O ideal é uma avaliação individualizada, ponderando sempre os riscos e benefícios entre os dois tratamentos.

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Um estudo sobre essa questão

Uma autora aprofundou o estudo sobre essa questão e separou os pacientes em dois grupos:

Aqueles que se adaptaram bem à lesão do LCA, chamados de “copers” e aqueles que não se adaptaram, que foram chamados de “non-copers”.

Algumas pessoas se adaptam bem, mesmo com a lesão do LCA e ainda conseguem voltar a fazer esportes, mesmo sem o ligamento, mas é preciso tomar cuidado com essas publicações, pois com o passar do tempo essas pessoas tiveram um risco mais alto de novas lesões.

Os estudos são fundamentais para evitar indicações desnecessárias de cirurgia, pois mostram que alguns pacientes podem evoluir bem sem o procedimento. No entanto, não se pode generalizar esses dados para todos, especialmente para pacientes jovens e ativos, que têm maior risco de instabilidade e novas lesões.

Por que o LCA é operado com mais frequência do que os outros ligamentos do joelho?

O LCA é operado com mais frequência porque sua ruptura é muito mais comum que a de outros ligamentos do joelho. Além disso, enquanto ligamentos como o colateral medial e o cruzado posterior podem cicatrizar sem cirurgia, o LCA tem uma circulação ruim e, quando rompe totalmente, não volta à posição correta sem reconstrução.

Comparação entre tratamento cirúrgico e conservador: vantagens, desvantagens, riscos e benefícios

Tratamento conservador

O principal benefício do tratamento sem cirurgia do LCA é evitar os riscos da operação e da anestesia, além do custo para quem precisa pagar. Outra vantagem é a recuperação mais rápida para as atividades diárias e o trabalho, o que é essencial para quem depende das pernas para sua profissão.

Após a fase inicial de inflamação, muitos pacientes, especialmente os mais velhos e sedentários, mal lembram da lesão. Já em pacientes jovens e ativos, o principal risco de não operar é a instabilidade do joelho, que pode limitar atividades, levar ao sedentarismo e até ao ganho de peso.

O segundo ponto é que a instabilidade do joelho pode causar lesões no menisco e desgaste da cartilagem, aumentando o risco de artrose precoce. Além disso, lesões crônicas no menisco e na cartilagem são mais difíceis de tratar e podem não ter bons resultados, mesmo com cirurgia.

Em casos graves, o desgaste pode exigir uma cirurgia maior, como a prótese de joelho, que tem recuperação mais difícil, maior risco e custo elevado, além de limitar a prática esportiva. Mesmo que a fisioterapia funcione, a pessoa precisará manter o fortalecimento contínuo, pois o ligamento permanecerá rompido.

Tratamento cirúrgico

A cirurgia do LCA consiste na reconstrução do ligamento, criando um novo, muitas vezes mais resistente que o original. Se bem realizada, permite ao paciente retornar aos esportes e reduz o risco de lesões no menisco, cartilagem e artrose precoce, diminuindo também a chance de necessitar de uma prótese no futuro.

Além disso, se o paciente realizar a fisioterapia corretamente, ele pode manter o fortalecimento numa musculação simples e o preparo físico específico para aquele esporte, sem precisar ficar dependente da fisioterapia.

Os riscos e desvantagens da cirurgia pode começar com o custo, caso não seja possível realizar pelo convênio ou SUS, que pode ter longas filas. No particular, em São Paulo, o valor parte de R$ 10 a 15 mil, mas pode ser até 3 a 4 vezes maior, dependendo do médico, do hospital e do material usado na cirurgia.

Outra desvantagem da cirurgia é o tempo de recuperação, embora não seja dos mais longos. Em menos de um mês, o paciente já anda sem muletas, dirige e retoma as atividades diárias, mas nas primeiras 2 a 3 semanas é ideal evitar os esforços e deslocamentos para outro ambiente de trabalho.

Para esportes de contato, a recuperação leva de 6 a 8 meses, mas com fisioterapia bem-feita, em 3 a 4 meses já é possível correr e fazer musculação.

Quais as complicações da cirurgia de reconstrução do LCA?

A reconstrução do LCA por artroscopia tem baixo risco, e as mais graves são raras.

Assim como em outras cirurgias ortopédicas, podem ocorrer ainda que mais raras:

  • Infecção;
  • Trombose;
  • Embolia pulmonar;
  • Rigidez articular;
  • Dor crônica;
  • Nova ruptura do ligamento;
  • Há também risco de lesão em nervos ou vasos sanguíneos;
  • Persistência do falseio no joelho;
  • e reações à anestesia.

As complicações que vemos de vez em quando são:

  • Rigidez da articulação;
  • Ruptura ou afrouxamento do ligamento;
  • Perda de sensibilidade da parte de dentro da canela;
  • Trombose;
  • E infecção superficial.

A maioria dessas lesões é possível tratar se acontecer, mas é melhor prevenir.

Qual é o diferencial na escolha do tratamento de LCA?

O grande diferencial na escolha do melhor tratamento é a estatística, ou seja, a chance de sucesso ou falha em cada caso.

Quando analisamos os números, tudo fica mais claro: estudos mostram que a cirurgia recupera a estabilidade funcional do joelho em cerca de 90% dos casos, enquanto o tratamento sem cirurgia funciona para apenas 60 a 70% dos pacientes ativos.

Então, se você é um paciente jovem e ativo e teve uma lesão total do LCA, na maioria das vezes a cirurgia é a melhor opção. Principalmente se você pratica esportes mais dinâmicos.

Para reduzir a chance de erro na cirurgia, é preciso escolher bem o cirurgião que vai te operar e o fisioterapeuta que vai te acompanhar. É importante também começar a fisioterapia antes mesmo da cirurgia, para ir já se preparando para o pós-cirúrgico.

Se você é menos ativo, não pratica esportes dinâmicos e já tem uma idade mais avançada, vale a pena considerar o tratamento conservador. Principalmente se não sente falseios.

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Para saber mais sobre as lesões do cruzado anterior e outras lesões ortopédicas, acesse o canal do YouTube do Dr. Oliver Ulson.

O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, com subespecialização em cirurgia do joelho e artroscopia, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.