
Tudo o que você precisa saber sobre a recuperação da cirurgia de LCA
Atualmente, o tratamento das lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) é feito exclusivamente por artroscopia. A recuperação pode variar dependendo da presença de lesões associadas. Por exemplo, se o paciente precisar de uma sutura de menisco ou da reconstrução de outro ligamento junto com o LCA, o processo pode ser mais demorado.
Neste artigo, explicaremos tudo o que um paciente precisa saber sobre a recuperação da cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior. Continue lendo!

O que acontece quando a cirurgia do LCA termina?
Logo no fim da cirurgia, depois dos pontos, faz-se um curativo estéril. No caso da reconstrução isolada do LCA é colocado um enfaixamento simples, para o conforto e funciona mais ou menos como uma imobilização, que dura no máximo 3 dias.
Por outro lado, se for feita a reconstrução do LCA combinada com uma sutura meniscal ou reconstrução de outro ligamento, é comum colocar uma imobilização do tipo brace.
O brace é uma imobilização com talas rígidas e velcro, que permitem retirar para tomar banho, fazer curativo, compressa de gelo e fisioterapia.
Depois que o paciente estiver acordado e estável, o anestesista libera para ir para o quarto. Se houver algum risco cirúrgico, como pacientes mais idosos ou com vários problemas de saúde, ele pode ir para a UTI, por precaução.
Esse tipo de cirurgia costuma sangrar muito pouco, então é raro o paciente precisar receber alguma bolsa de sangue.
Se a recuperação na UTI for boa ou o paciente for direto para o quarto após a cirurgia, a internação costuma ser de apenas um dia, podendo receber alta no mesmo dia.
Como é uma cirurgia muito limpa, com irrigação frequente do joelho com soro fisiológico, o uso de antibióticos geralmente se limita a 24 a 48 horas. O serviço de controle de infecção hospitalar da maioria dos hospitais orienta que não façam por mais tempo do que isso, pelo risco de aumento da resistência bacteriana.
Quais os possíveis riscos da artroscopia de joelho?
A artroscopia de joelho tem baixo risco de trombose, mas fatores individuais podem aumentá-lo, exigindo uma avaliação cuidadosa para considerar o uso de anticoagulantes.
Geralmente, a dor no pós-operatório é leve, mas pode ser maior em casos que exigem mais manipulação do joelho. Por isso, é essencial seguir a medicação para dor, pois evitar os analgésicos pode dificultar a recuperação.
A dor mal controlada pode levar à dor crônica, dificultando a fisioterapia e a mobilidade, o que prejudica a recuperação. Por isso, é fundamental tomar os analgésicos desde o início.
Na reconstrução isolada do ligamento cruzado anterior (LCA) ou associada a uma meniscectomia simples, a fixação do enxerto ao osso é firme, e as atividades básicas não representam risco. Assim, após a operação o paciente fica de muleta, mas pode pisar desde o primeiro dia da cirurgia.
Se houve sutura do menisco, uso de membrana de colágeno ou mosaicoplastia para lesão de cartilagem, o paciente geralmente precisa usar um brace e evitar carga na perna por 6 a 8 semanas, sempre caminhando com duas muletas para não comprometer a cirurgia.

Como é feito o curativo da cirurgia de LCA?
O curativo feito na cirurgia é estéril e não precisa ser trocado no dia seguinte, podendo ficar fechado por 2 a 3 dias. Se houver muito sangue, avise seu médico e troque com o máximo de cuidado.
Se o paciente for embora com o curativo, pode ser necessário voltar ao consultório na mesma semana, mas se o curativo foi trocado antes da alta, não tem problema voltar no consultório 2 semanas depois.
O tempo médio para retirada dos pontos varia, podendo ser um pouco mais ou menos.
O enfaixamento pós-cirúrgico pode afrouxar em poucos dias, e não há problema em removê-lo, assim como se molhar no banho. O curativo abaixo costuma ser impermeável, permitindo o banho, se não for ou estiver muito sujo, pode ser trocado.
Limpe com clorexidina aquosa ou soro fisiológico e gaze. Cubra com gaze e micropore, fácil de encontrar em farmácias. Para evitar molhar, use plástico filme de PVC, como o de cozinha.
Remova o curativo, lave com soro ou clorexidina e aplique um novo com gaze e micropore. Se houver mais sangramento, troque até duas vezes ao dia. Quando parar de sangrar ou drenar líquido, pode tomar banho sem curativo, lavando com água e sabão.
Quando iniciar a fisioterapia após a cirurgia de LCA?
A fisioterapia pode começar antes da retirada dos pontos. Logo após uma artroscopia, é essencial movimentar as articulações para evitar rigidez.
Toda cirurgia forma fibrose, uma cicatriz interna que fica rígida com o tempo. Quanto mais demorar para movimentar, pior. Por isso, a fisioterapia deve começar na mesma semana.
No início, é essencial usar terapias analgésicas como TENS, ultrassom, laser e gelo para reduzir dor e inflamação. O gelo deve ser aplicado 3 a 4 vezes ao dia, por 15 a 20 minutos, sempre com proteção na pele para evitar queimaduras e piora da inflamação.
No caso das cirurgias do joelho, recomenda-se fazer um trabalho de mobilização patelar. Funciona como um alongamento da parte da frente do joelho, ajudando a diminuir a dor na frente do joelho e ganhar flexão.

Como executar o exercício de mobilização patelar?
Com o joelho esticado e relaxado, mova a patela para os lados, para cima e para baixo, mantendo cada posição por cerca de 20 segundos. Desde o início, é essencial fazer exercícios para a mobilidade do joelho. O mais importante é recuperar a extensão rapidamente, pois, se não for conquistada no começo, fica difícil corrigir depois. Já a flexão é mais fácil de melhorar com o tempo.
Além disso, se realizou a reconstrução do LCA com ou sem uma meniscectomia, é preciso dobrar o joelho conforme tolerado. Mas se fez o ligamento cruzado em conjunto com uma sutura de menisco ou uma membrana de colágeno para lesão de cartilagem, a flexão é progressiva ao longo das semanas. É ideal manter a flexão do joelho até 90 graus por 4 semanas, depois disso pode ir treinando um pouco mais de flexão.
O acompanhamento com um fisioterapeuta experiente faz toda a diferença no resultado da cirurgia. Na reabilitação, é essencial estimular a contração do quadríceps, usando técnicas como estimulação elétrica ou exercícios de elevação da perna com o joelho esticado.
Movimentar o pé, tornozelo e panturrilha é importante para reduzir inchaço e o risco de trombose, já que a contração da panturrilha ajuda na circulação sanguínea. Além disso, é importante fortalecer os músculos da perna com supervisão e treinar a caminhada com andador conforme a liberação de carga da cirurgia.
Sinais de alerta no pós-operatório
As principais complicações e mais temidas são:
- Infecções;
- Trombose e embolia pulmonar;
- Hemorragia;
- E a lesão de algum nervo.
Os principais sintomas desses problemas, são:
– Hemorragia
A hemorragia nada mais é do que um sangramento fora do normal. Diferente de uma osteotomia ou uma prótese, não é comum um curativo ficar encharcado de sangue chegando a molhar o lençol.
Se o paciente ficar pálido, fraco ou com falta de ar, é importante verificar a pressão, a frequência cardíaca e a saturação de oxigênio com um oxímetro. Caso isso ocorra, ele deve ser avaliado com urgência, podendo precisar ir ao pronto-socorro.
É normal que o curativo libere sangue por alguns dias, assim como uma secreção clara, especialmente em quem usa anticoagulante, que pode retardar a cicatrização, mas previne trombose.
– Infecção
Se a secreção for amarelada, opaca e espessa, semelhante a catarro, pode ser pus, indicando possível infecção. Outros sinais de infecção incluem febre, falta de ar, vermelhidão, calor local no local da cirurgia, piora da dor e do movimento, inchaço no local e dificuldade de cicatrização da pele. Caso isso aconteça, avise seu médico o quanto antes.
Se houver pus, geralmente é necessária uma cirurgia de limpeza, pois apenas antibiótico não resolve. Se for uma inflamação superficial ao redor dos pontos, pode ser celulite ou reação aos pontos, e nesses casos, o antibiótico e a retirada dos pontos, se já houver cicatrização, podem ajudar.
– Trombose e embolia pulmonar
Quando um coágulo se forma dentro de uma veia, ele pode se soltar e viajar até o pulmão, bloqueando uma artéria pulmonar—o que chamamos de embolia pulmonar. Isso impede a troca de oxigênio no sangue e, dependendo do tamanho da embolia, pode ser fatal.
Se sua panturrilha ficar tensa, inchada, endurecida e deixar marca ao pressionar a pele, avise seu médico e procure o pronto-socorro para um ultrassom Doppler, que avalia a presença de trombose na perna.
Se, além dos sintomas, houver falta de ar, a urgência é ainda maior. Vá ao pronto-socorro imediatamente para exames de sangue e do pulmão. Fique atento também à perda de sensibilidade ou movimento, além de traumas como torções, batidas ou quedas.
A perda de sensibilidade após a cirurgia pode ser normal, pois o anestesista pode realizar um bloqueio de nervo periférico para reduzir a dor. Isso pode durar alguns dias, afetando a sensibilidade do joelho para baixo, mas raramente compromete o movimento.
Outros sintomas como confusão mental, náusea e vômito, dor no abdômen, dificuldade de ir ao banheiro também têm que ser avisados ao seu médico, porque pode acontecer por causa das medicações. E quanto antes tratar isso, melhor.
Quanto tempo leva para andar sem muletas, subir escadas e dirigir após a reconstrução do LCA?
Após a reconstrução do LCA, com ou sem meniscectomia, o paciente começa a andar com muletas no dia seguinte, colocando carga conforme tolerado. As muletas são deixadas de lado assim que houver equilíbrio e força na coxa para evitar quedas. O tempo varia, mas geralmente não passa de 3 a 4 semanas.
Alguns pacientes deixam as muletas em 1 ou 2 semanas. Já em cirurgias de LCA com sutura de menisco, mosaicoplastia ou membrana de colágeno, é necessário evitar carga por 4 semanas, depois carga parcial por mais 2 a 4 semanas, totalizando cerca de 8 semanas para andar sem muletas.
Fazer fisioterapia antes da cirurgia acelera a recuperação. Isso vale para dirigir e subir escadas, só deve dirigir se a perna operada estiver com boa função.
O maior risco não é a cirurgia em si, mas a falta de força e controle muscular, que pode causar acidentes graves no trânsito ou quedas em escadas—bem piores do que apenas cair no chão.
Portanto, é aconselhado que os pacientes voltem a fazer essas coisas depois que já estejam conseguindo andar sem precisar de apoio.
Quando retornar as atividades físicas?
O retorno para atividade física é gradativo, conforme a evolução na fisioterapia, geralmente o paciente começa com exercícios de musculação leve e bicicleta ergométrica, para voltar a fazer atividade na água é necessário esperar cicatrizar bem e já ter retirado os pontos.
Seguindo o protocolo de fisioterapia, em 3 a 4 meses o paciente geralmente já consegue correr em linha reta, em terreno plano ou esteira. Para esportes mais intensos, leva mais tempo, pois é necessário um preparo físico específico.
No futebol, por exemplo, é essencial treinar deslocamento lateral, aceleração e desaceleração. Se não, pode se machucar quando voltar a treinar.
O retorno a esportes com mudança de direção e contato ocorre, em média, entre 6 e 8 meses. Mas não é só o tempo que importa—antes da liberação, é essencial um teste funcional, que avalia força, impulsão e equilíbrio, comparando a perna operada com a saudável. Geralmente, espera-se que a perna operada atinja pelo menos 90% da função do outro lado.
É fundamental esclarecer todas as dúvidas sobre a recuperação precoce da cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior. Para saber mais sobre o LCA, acesse meu canal no YouTube.
O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.



