Recuperação após a cirurgia de prótese de joelho

Neste conteúdo, eu vou explicar, com todos os detalhes e sem enrolação, como é a recuperação após a cirurgia, o que esperar no hospital, em casa, nas primeiras semanas e nos primeiros meses. Além do que pode e o que não pode fazer e os principais cuidados que garantem uma boa recuperação.

Entendendo o que acontece no centro cirúrgico

Logo que a cirurgia termina, o paciente passa por um período de observação na recuperação anestésica do centro cirúrgico, que às vezes pode demorar mais de uma hora. E, além disso, nós cirurgiões precisamos preencher muito papel e burocracias logo que acaba o procedimento.

Pode até parecer banal explicar isso, mas é porque vemos muito acompanhante ansioso. Como a gente demora às vezes pra dar notícia, o pessoal fica preocupado achando que aconteceu alguma coisa. Por isso, é sempre bom deixar claro que todo o processo cirúrgico pode demorar bastante.

A maioria dos pacientes que estão estáveis vai direto para o quarto, mas em alguns casos, principalmente em pacientes com mais idade ou com doenças associadas,  pode ser necessário ficar na UTI logo depois da cirurgia. Isso é normal e serve para garantir um monitoramento mais próximo nas primeiras horas.

Primeiros dias no hospital: dreno, mobilização e caminhada

Já no primeiro ou segundo dia após a cirurgia, o paciente vai ter o dreno removido e começa a se sentar, levantar com ajuda e treinar a caminhada com andador.

A gente quer que o paciente levante e ande o mais cedo possível, porque isso reduz muito o risco de complicações. Como por exemplo, trombose, pneumonia, infecção urinária, feridas na pele e perda de massa muscular.

A prótese é cimentada no osso, o que permite apoio de peso total desde o início. Ou seja, o paciente pode pisar no chão com a perna operada já no dia seguinte, desde que esteja com dor controlada e consiga fazer isso com segurança.

Após a alta: remédios e controle da dor

Logo depois da alta, o paciente vai precisar usar alguns remédios importantes, como analgésicos para dor, anti-inflamatórios (quando indicados), anticoagulantes para prevenir trombose e, às vezes, antibióticos, dependendo do perfil clínico.

E é sempre bom ressaltar que não é o momento de ficar aguentando dor sem necessidade. Muita gente acha que é forte e corajoso por não tomar o remédio, mas isso só atrapalha. Prejudica muito o resultado da cirurgia.

Dor mal controlada impede a fisioterapia, aumenta a chance de desenvolver dor crônica e atrasa toda a reabilitação. Por isso, tome os remédios conforme prescrito, quanto menos dor, melhor vai ser sua recuperação.

Organização da casa e primeiros cuidados

Assim que o paciente volta pra casa, é necessário já ter um andador ajustado na altura certa, organizar o ambiente para evitar acidentes. Além disso, é importante garantir que tenha alguém por perto nos primeiros dias, para ajudar a levantar, ir ao banheiro, tomar banho e se sentir mais seguro.

Cuidados com o curativo

O curativo colocado na cirurgia é estéril e pode ficar fechado por 2 a 3 dias, sem trocar, desde que esteja razoavelmente limpo.

Geralmente é colocado um curativo impermeável sobre os pontos e depois feito um enfaixamento acolchoado, que muitas vezes afrouxa, e, nesse caso, não tem problema tirar.

Se estiver muito sujo de sangue, pode ser trocado antes, mas não precisa se preocupar. É normal sangrar um pouco nos primeiros dias, especialmente porque o paciente está usando anticoagulante.

Depois da primeira troca de curativo, a orientação que eu costumo dar é continuar trocando diariamente, mantendo sempre limpo e seco, até que pare de drenar qualquer tipo de líquido pelos pontos.

A troca do curativo pode ser feita com limpeza simples usando soro fisiológico ou clorexidina aquosa, gaze limpa e micropore. Ou, pra quem pode pagar, existem curativos impermeáveis iguais aos colocados no centro cirúrgico. A marca referência é o Opsite, mas você pode comprar um similar.

Dica: se você está fazendo os curativos com gaze e micropore, para tomar banho com mais segurança nos primeiros dias, você pode cobrir o curativo com plástico filme. Isso ajuda a manter o local protegido e facilita o cuidado em casa.

Sinais de alerta no curativo

É muito importante prestar atenção no tipo de líquido que sai pela incisão da cirurgia. Se a secreção que sair for clara, tipo água com um pouco de sangue, está tudo bem.

Agora, se for amarela e espessa, com cheiro forte, ou parecida com catarro, isso provavelmente é pus. Por isso, precisa ser avaliado com urgência.

Uso de gelo

Outro ponto importante é o uso de gelo. Gelo ajuda a controlar o inchaço e a dor, mas precisa ser usado com bom senso: de 3 a 4 vezes por dia, por 15 a 20 minutos, com um pano entre o gelo e a pele.

Além disso, não use o gelo direto na pele, porque isso pode causar queimadura e piorar a inflamação.

A importância da fisioterapia

Vamos falar agora da fisioterapia, que é uma das partes mais importantes de todo esse processo. A fisioterapia deve começar ainda na primeira semana após a cirurgia, mesmo que o paciente ainda esteja com pontos ou com dor.

Esperar pra começar só depois de tirar os pontos é um erro que atrasa muito a recuperação. O foco inicial da fisioterapia é aliviar dor e inflamação, recuperar o movimento e ativar a musculatura.

E aqui entra algo que muita gente não sabe: o joelho operado precisa ser movimentado desde o início. Ou seja, dobrar e esticar o máximo possível dentro do limite de dor, principalmente focando na extensão.

A perda de extensão limita muito a passada enquanto caminhamos, e depois de um tempo é muito difícil corrigir isso. A limitação de flexão atrapalha menos e é mais fácil de resolver depois.

Também é importante começar o fortalecimento da coxa, principalmente do músculo quadríceps, que fica muito inibido logo após a cirurgia.

Por fim, outra coisa necessária é a mobilização da patela, que é o osso da frente do joelho. Essa mobilização evita que a patela fique presa por fibrose e ajuda a reduzir a dor anterior, facilitando muito nos alongamentos da fisioterapia.

Como fazer a mobilização da patela

Com o joelho totalmente esticado e o músculo relaxado, a pessoa vai fazer manobras simples: movimentar a patela para os lados, para cima e para baixo, contando uns 20 segundos em cada posição.

Retorno ao consultório e evolução da marcha

O retorno ao consultório costuma acontecer entre 1 e 2 semanas após a alta. É quando avaliamos a cicatrização, removemos os pontos (quando necessário) e ajustamos a reabilitação conforme a evolução.

Se estiver tudo indo bem, o andador costuma ser deixado de lado em poucas semanas.

Alguns pacientes ficam com uma bengala por mais algum tempo, mas a meta é que, por volta de 30 dias, o paciente já esteja andando com liberdade, pelo menos dentro de casa.

Atividades diárias: dirigir, escadas e exercícios

Outro ponto que gera muita dúvida é quando voltar a dirigir, subir escadas e fazer atividade física. A resposta é: depende do quanto você recuperou de força, equilíbrio e controle muscular.

Em geral, o paciente pode voltar a dirigir quando conseguir fazer todos os movimentos com segurança, sem depender do andador. Subir escadas pode ser feito com apoio, de forma gradual, primeiro subindo com a perna boa, depois com a operada, e sempre com orientação do fisioterapeuta.

As atividades físicas começam pela bicicleta ergométrica e musculação leve. Exercícios na água só depois que a pele estiver totalmente cicatrizada, para não ter risco de infecção.

Sinais de alerta importantes

E falando em infecção, vamos falar de alguns sinais de alerta que você precisa prestar atenção. Os principais sinais de infecção são febre, secreção purulenta no curativo, piora da dor com o passar dos dias e vermelhidão espalhada.

Se o curativo estiver encharcado de sangue, se o paciente ficar pálido, com falta de ar, batimento acelerado ou sensação de desmaio, isso pode indicar hemorragia.

Se a perna estiver muito inchada, dura, com dor ao apertar e dificuldade de mexer o pé, pode ser sinal de trombose.

E, se vier acompanhado de falta de ar, cansaço e dor no peito, pode ser embolia pulmonar.

Portanto, em qualquer um desses casos, procure o seu médico ou vá direto ao pronto-socorro. Quanto mais cedo a gente identifica e trata, menor o risco de complicações.

Conclusão

Como você viu até aqui, a recuperação da cirurgia de prótese de joelho não termina quando você sai do hospital. Ela continua em casa, com cuidado, disciplina e acompanhamento profissional.

Agora, uma coisa é muito importante reforçar: a avaliação correta do seu caso e uma cirurgia segura e bem realizada. É por isso que a gente ainda vê muitas pessoas que fazem tudo certo e, ainda assim, têm um resultado ruim.meu blog.


O Dr. Oliver Ulson é médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Além disso, ele realiza também atendimentos em seu consultório particular em São Paulo e por telemedicina.