Remédios que devem ser suspensos antes da cirurgia: guia completo

Antes de uma cirurgia, é fundamental compreender que certos medicamentos e suplementos podem interferir no procedimento, aumentando riscos como sangramentos excessivos ou complicações anestésicas.
Neste artigo, exploraremos detalhadamente quais medicamentos devem ser suspensos, os motivos por trás dessas recomendações e como garantir uma cirurgia segura.​ Boa leitura!

A Importância da avaliação pré-anestésica

Antes de qualquer procedimento cirúrgico, é essencial realizar uma avaliação pré-anestésica. Essa etapa, conduzida pelo médico anestesiologista, é fundamental para garantir a segurança do paciente durante a cirurgia. Durante essa consulta, o anestesiologista revisa o histórico médico do paciente, avalia suas condições clínicas e determina o plano anestésico mais adequado. Além disso, é o momento de esclarecer dúvidas, reduzir a ansiedade e preparar o paciente para o procedimento.​

Durante a avaliação pré-anestésica, é crucial que o paciente informe detalhadamente todos os medicamentos, suplementos, vitaminas e substâncias que utiliza. Isso inclui não apenas os medicamentos prescritos, mas também os de venda livre, fitoterápicos e substâncias recreativas. Informações sobre alergias, doenças pré-existentes e histórico de cirurgias anteriores também são essenciais. Esses dados permitem ao anestesiologista identificar possíveis interações medicamentosas e ajustar o plano anestésico conforme necessário.​

A transparência durante essa consulta é vital. O anestesiologista precisa de todas as informações relevantes para planejar a anestesia de forma segura e eficaz. Ocultar ou omitir informações pode aumentar o risco de complicações durante a cirurgia. Portanto, é fundamental que o paciente seja honesto e detalhado ao fornecer seu histórico médico e uso de substâncias.​

Além da coleta de informações, a avaliação pré-anestésica também envolve orientações sobre cuidados pré-operatórios. O anestesiologista explicará sobre o jejum necessário antes da cirurgia, quais medicamentos devem ser suspensos ou continuados, e outras recomendações específicas para o procedimento. Essas orientações são fundamentais para minimizar riscos e garantir uma recuperação tranquila.

Medicamentos que devem ser suspensos

A suspensão adequada de medicamentos antes de uma cirurgia é um dos pilares para garantir a segurança do paciente durante o procedimento. Muitos fármacos e suplementos, ainda que utilizados rotineiramente, podem interagir com a anestesia ou interferir no processo de coagulação, aumentando o risco de complicações graves. Por isso, a orientação médica individualizada é indispensável. A seguir, você confere os principais grupos de substâncias que, em geral, precisam ser interrompidos no pré-operatório.

Antiagregantes plaquetários

Medicamentos antiagregantes plaquetários têm como função evitar a formação de coágulos, o que é extremamente importante para pacientes com histórico de infarto, AVC ou outras doenças cardiovasculares. No entanto, esse efeito pode se tornar um problema durante cirurgias, já que impede a coagulação normal do sangue.
Entre os principais exemplos, destacam-se:

  • Aspirina (ácido acetilsalicílico): deve ser suspensa entre 7 e 10 dias antes da cirurgia, especialmente em procedimentos com alto risco de sangramento, como neurocirurgias e cirurgias oftalmológicas.
  • Clopidogrel: medicamento bastante prescrito após colocação de stents, exige suspensão de 5 a 7 dias.
  • Ticlopidina: menos comum atualmente, mas quando utilizada, recomenda-se interromper com 10 a 14 dias de antecedência.


Além dos medicamentos, diversos suplementos naturais apresentam propriedades anticoagulantes que passam despercebidas pelos pacientes. Entre eles:

  • Ginkgo biloba
  • Ginseng
  • Alho em cápsulas ou concentrado

Todos esses devem ser interrompidos pelo menos 7 dias antes do procedimento. O Ginkgo biloba, por exemplo, é conhecido por aumentar significativamente o risco de hemorragias intraoperatórias, sendo um dos mais problemáticos nesse contexto, segundo relatos frequentes de cirurgiões.

Anticoagulantes

Diferentemente dos antiagregantes, os anticoagulantes atuam diretamente na cascata de coagulação do sangue. Eles são indicados principalmente em casos de fibrilação atrial, trombose venosa profunda e próteses valvulares. No entanto, seu uso no pré-operatório exige atenção redobrada.

  • Varfarina (Marevan): deve ser suspensa 5 dias antes, e o paciente deve fazer controle rigoroso do INR (International Normalized Ratio) para garantir níveis seguros para a cirurgia.
  • Rivaroxabana (Xarelto) e Apixabana (Eliquis): precisam ser suspensas de 24 a 48 horas antes, a depender do risco de sangramento do procedimento.

Quanto à heparina de baixo peso molecular, como a enoxaparina (Clexane):

  • Se o uso for terapêutico, o paciente deve interromper a medicação 24 horas antes da cirurgia.
  • Já em dose profilática (preventiva), o intervalo pode ser reduzido para 12 horas, conforme orientação médica.

A correta suspensão dos anticoagulantes exige coordenação entre o cirurgião, o anestesista e, muitas vezes, o cardiologista ou hematologista do paciente. Em alguns casos, pode ser necessário realizar o que se chama de “ponte” com heparina.

Antidiabéticos orais e injetáveis

Pacientes com diabetes também precisam de cuidados específicos antes da cirurgia. O controle da glicemia deve ser rigoroso, pois níveis muito altos ou muito baixos podem prejudicar a cicatrização e aumentar o risco de infecções.

Veja como agir com os principais medicamentos:

  • Metformina: amplamente utilizada, deve ser suspensa 24 a 48 horas antes. Isso evita o risco raro, mas grave, de acidose láctica, especialmente em casos com uso de contraste intravenoso.
  • Glibenclamida e Glicazida: exigem suspensão 24 horas antes, já que podem causar hipoglicemia em jejum prolongado.
  • Insulina: a dose deve ser ajustada individualmente, muitas vezes sendo mantida em regime hospitalar com controle rigoroso da glicemia capilar.

Além disso, medicamentos mais recentes, comumente utilizados também para emagrecimento, devem ser temporariamente suspensos:

Semaglutida: (Ozempic, Wegovy) e Dulaglutida (Trulicity): devem ser interrompidas entre 10 e 14 dias antes da cirurgia, pois retardam o esvaziamento gástrico. Isso aumenta o risco de broncoaspiração no momento da anestesia, mesmo em pacientes em jejum.

Liraglutida: (Victoza, Saxenda): nesse caso, a suspensão geralmente ocorre 2 dias antes.

Sibutramina e Orlistate: (Xenical) podem interferir na anestesia e devem ser suspensas pelo menos 7 dias antes do procedimento.

Quando utilizados para controle do diabetes tipo 2, a interrupção dessas substâncias precisa ser feita em conjunto com o endocrinologista, que poderá sugerir substituições provisórias.

Fitoterápicos e suplementos naturais: riscos e recomendações pré-cirúrgicas​

Embora muitas pessoas considerem os fitoterápicos e suplementos naturais como alternativas seguras aos medicamentos convencionais, é crucial reconhecer que essas substâncias podem ter efeitos significativos no organismo, especialmente no contexto cirúrgico. Diversos estudos e especialistas alertam para os riscos associados ao uso desses produtos antes de procedimentos cirúrgicos, destacando a importância de uma avaliação médica criteriosa.​

Interferência na coagulação sanguínea

Alguns fitoterápicos possuem propriedades que podem interferir na coagulação do sangue, aumentando o risco de sangramentos durante e após a cirurgia.

Por exemplo, estudos associam o Ginkgo biloba amplamente utilizado para melhorar a memória e a circulação a casos de sangramentos intracranianos espontâneos e hemorragias pós-operatórias.

O alho (Allium sativum), conhecido por seus benefícios cardiovasculares, também apresenta ação antiplaquetária, podendo potencializar o risco de sangramentos. Estudos indicam que o uso excessivo de alho pode levar a complicações hemorrágicas significativas.

Recomendações de suspensão

Dada a variedade de efeitos e interações possíveis, as recomendações de suspensão variam conforme o fitoterápico em questão. De maneira geral, é aconselhável interromper o uso de fitoterápicos pelo menos 7 dias antes da cirurgia. No entanto, alguns produtos podem exigir um período maior de suspensão:​

  • Ginkgo biloba: suspender 36 horas antes da cirurgia;
  • Alho: suspender no mínimo 7 dias antes;
  • Ginseng: suspender 7 dias antes;
  • Valeriana: suspender 7 dias antes;
  • Kava-kava: suspender 24 horas antes.

É fundamental que os pacientes informem aos seus médicos sobre o uso de qualquer fitoterápico ou suplemento natural durante a avaliação pré-anestésica. Essa transparência permite que a equipe médica tome as precauções necessárias para minimizar riscos e garantir a segurança do procedimento cirúrgico.​

Medicamentos que devem ser mantidos

Durante o planejamento de uma cirurgia, é comum focar na suspensão de medicamentos que possam interferir negativamente no procedimento. No entanto, é igualmente crucial identificar e manter aqueles fármacos cuja interrupção poderia descompensar condições clínicas preexistentes, aumentando o risco de complicações intra e pós-operatórias. A seguir, apresentamos os principais grupos de medicamentos que, em geral, os pacientes devem continuar até o dia da cirurgia, sempre com orientação médica individualizada.

Anti-hipertensivos e antiarrítmicos

Pacientes em tratamento para hipertensão arterial ou distúrbios do ritmo cardíaco devem, na maioria das vezes, manter seus medicamentos até o momento da cirurgia. Betabloqueadores, como o propranolol, e antiarrítmicos, como a amiodarona, são exemplos de fármacos que ajudam a estabilizar a função cardiovascular durante o estresse cirúrgico. A interrupção abrupta desses medicamentos pode levar a picos hipertensivos ou arritmias, aumentando o risco de eventos adversos durante o procedimento. O cardiologista e o anestesista devem tomar juntos a decisão de manter ou ajustar a medicação, considerando as especificidades de cada caso.

Medicamentos para tireoide

Pacientes com hipotireoidismo devem continuar a administração da levotiroxina até o dia da cirurgia. A suspensão deste hormônio pode resultar em descompensação do metabolismo basal, afetando negativamente a recuperação pós-operatória.

Por outro lado, em casos de hipertireoidismo, é importante manter o uso de antitireoidianos, como o propiltiouracil ou o metimazol, para evitar crises tireotóxicas. O endocrinologista responsável deve monitorar os níveis hormonais e ajustar as doses, quando necessário.

Corticoides

Para pacientes em uso contínuo de corticoides, é fundamental manter uma dose de manutenção no período perioperatório. A suspensão abrupta desses medicamentos pode levar à insuficiência adrenal, uma condição potencialmente grave caracterizada por hipotensão, hipoglicemia e desequilíbrio eletrolítico.
Em alguns casos, pode ser necessário administrar doses suplementares de corticoides durante o procedimento, especialmente em cirurgias de maior porte ou em situações de estresse fisiológico significativo. A equipe médica deve tomar a decisão sobre o esquema de reposição com base na avaliação clínica e nos protocolos institucionais.

Medicamentos psiquiátricos

A maioria dos antidepressivos e ansiolíticos pode ser mantida até o dia da cirurgia, pois a interrupção súbita pode desencadear sintomas de abstinência ou exacerbação do transtorno psiquiátrico subjacente. No entanto, é essencial informar o anestesista sobre o uso desses medicamentos, uma vez que algumas classes podem interagir com os agentes anestésicos, exigindo ajustes no plano anestésico.
Por exemplo, os inibidores da monoaminoxidase (IMAO) podem potencializar os efeitos de certos anestésicos, aumentando o risco de crises hipertensivas. A sibutramina, utilizada para controle de peso, deve ser suspensa pelo menos 15 dias antes da cirurgia, devido ao seu potencial de elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca. A decisão sobre a manutenção ou suspensão de medicamentos psiquiátricos deve ser tomada em conjunto com o psiquiatra e o anestesista, considerando os riscos e benefícios individuais.

​Se você deseja obter todas as orientações necessárias para se preparar adequadamente para a cirurgia, vale a pena ler este artigo.
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Sou o Dr. Oliver Ulson, médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, professor, mestre e doutorando na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Realizo atendimentos presenciais em meu consultório particular em São Paulo e Alphaville ou por telemedicina.